Brasil desiste de receber Conferência do Clima da ONU

Iceberg flutua perto da cidade de Tasiilaq, na Gronelândia / Crédito: Lucas Jackson/Reuters

Para Observatório do Clima, reviravolta provavelmente se deve à oposição do governo eleito, que já declarou guerra ao desenvolvimento sustentável em mais de uma ocasião

O governo brasileiro desistiu de receber a COP 25 (Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas) em novembro de 2019 sob alegação de restrições orçamentárias e o processo de transição presidencial em curso. O comunicado foi enviado nesta terça-feira (27) à secretária-executiva da Convenção, a embaixadora Patrícia Espinosa.

A decisão ocorre quase dois meses após a confirmação da candidatura brasileira, à época celebrada pelo governo de Michel Temer. Em outubro, o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota pontuando que a realização do evento confirmava o papel de liderança mundial do país em temas de desenvolvimento sustentável e refletia o consenso da sociedade brasileira sobre a importância e a urgência de ações que contribuíssem no combate à mudança do clima.

O Observatório do Clima lamentou o recuo brasileiro e rechaçou o argumento orçamentário, pois o recurso já estaria reservado. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, foi estabelecida uma reserva de recursos do Fundo Clima para garantir a realização da COP-25, que também teve seu orçamento aprovado em junho pelo Congresso, em emenda da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

"Para presidir este encontro, o país teria que manter e implementar medidas relativas ao tema. Essa desistência passa ao mundo uma imagem negativa. Acredito que tenha sido muito mais pelo novo governo do que pela questão orçamentária", disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório, ao jornal O Globo.

A instituição considera que "a reviravolta provavelmente se deve à oposição do governo eleito, que já declarou guerra ao desenvolvimento sustentável em mais de uma ocasião". Depois de se declarar contra o Acordo de Paris e até mesmo contra a permanência do Brasil na ONU, Bolsonaro indicou para o cargo de Ministro das Relações Exteriores o diplomata Ernesto Araújo, para quem as mudanças climáticas seriam um "dogma marxista". Em artigo publicado recentemente no jornal Gazeta do Povo, Araújo promete combater ideologias, incluindo o "alarmismo climático".

"Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos. Ao ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas", pontuou o Observatório em nota publicada em seu site.

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