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Viagem pelo Amazonas: uma lição de amor

Por Bárbara Figueiredo


No celular de alguém, aparece a mensagem: PROCURANDO REDES... Ao ser lida em voz alta, provoca gargalhadas em vários passageiros do barco Rondônia. Afinal, olhando ao redor só vemos redes: de muitas cores e estampas, algumas de algodão, grandes e confortáveis com capacidade para embalar até uma família inteira, outras de "pescador", feitas de um tecido sintético que pesa quase nada e seca rapidamente. As redes embalarão o sono dos 385 passageiros a bordo do barco Rondônia, distribuídos entre o 3º e o 4º andar, durante os próximos seis dias.


Nos primeiro e no segundo andar, o espaço é destinado para a sala de máquinas, cargas, cozinha e instalações da tripulação. Estamos em pleno Rio Amazonas , o maior do mundo tanto em vazão como em comprimento: são 6762 km desde a nascente no rio Ucayalli, Peru, até sua foz no oceano Atlântico, onde deságua 20% da água doce disponível no planeta.


Nesse trecho observamos o estreito de Breves, um conjunto de pequenos rios e ilhas ao sul da ilha de Marajó conhecido internacionalmente por causa do assédio dos ribeirinhos que, ao verem passar os barcos grandes, saem das margens em pequenas canoinhas com objetivo de chegar perto e recolher uma das sacolas de plástico jogadas pelos passageiros ao rio contendo alguma coisa: roupas, alimentos, dinheiro, calçados e o que mais possa servir a estes seres quase mágicos saídos do meio da floresta.


São canoas de até 1,5 m por 1m que carregam em média três passageiros, às vezes duas ou três crianças de 5, 7 ou 4 anos, por exemplo, ou jovens adolescentes com seus bebezinhos de peito, homens sozinhos e até senhoras de cabelos brancos, que seguramente conhecem os suspiros do rio e as propriedades medicinais das plantas amazônicas. E todos com uma habilidade impressionante no manejo do remo.


Para muitos, a cena pode ser descrita como patética; em nosso imaginário ocidental a idéia de que estas pessoas tenham que se arriscar nas turbulentas e profundas águas do Amazonas para receber o que haja nestas sacolas de plástico soa como mendicância. "Afinal, quem pode ser feliz vivendo assim tão isolado do mundo, recebendo de vez em quando pequenos trocados pela venda de um pouco de pupunha, açaí, peixe ou camarão, e dependendo, ainda, da boa vontade dos que passam nos grandes barcos?", escuto alguém pensar em voz alta.


Porém, existe mais ligação entre a vida amazônica e Deus do que pode supor toda a racionalidade do mundo desenvolvido. E mais espiritualidade na quietude da mata do que nos frenéticos shoppings das grandes capitais.


Histórias


Durante estes dias percorrendo os estados do Pará e Amazonas, uma verdadeira lição de amor é ensinada para os que querem aprender. Desde o barco Rondônia, os passageiros captam instintivamente a magia de ver o rio, as garças, o nascer e o pôr do sol, acompanhar os movimentos de todas canoas e barcos que cruzam nosso caminho, além de compartilhar as impressões sobre a viagem e também as histórias íntimas da vida de cada um que se dispõe a abrir seu coração.


Histórias diversas, como as das jovens esposas com seus filhos que vão se encontrar com o marido e iniciar uma vida nova em Manaus, ou do jovem que vai finalmente conhecer a mãe depois de ter passado quase trinta anos no Maranhão em companhia da avó, das famílias inteiras e de gente de todo tipo em busca de trabalho na capital manauara... com seus sonhos, medos, esperanças...


Nas primeiras horas, ainda nas Docas de Belém, todos somos estranhos e o clima reinante é de timidez. Porém, uma vez armadas as redes e dispostas as bagagens debaixo das mesmas - e em cima de umas tábuas para proteger das chuvas que seguramente entrarão pelas janelas até o piso - é hora, então, de olhar para o vizinho.


A conversa começa invariavelmente com um comentário sobre a dinâmica no barco... pode ser sobre a comida, aonde estamos, qual a próxima parada, porque os motores silenciaram, quem está na canoa que se aproxima, que tipo de peixe traz... para em seguida evoluir para o âmbito pessoal. Nesse momento ficamos sabendo o nome e um pouco da vida do outro: de onde vem, para onde vai, com quem, porquê...


Depois dessa introdução as conversas continuam nos dias seguintes, seja durante a fila para o café da manhã, tão logo soa o apito, às 6h em ponto, seja acompanhando as manobras do comandante na parte posterior do barco, onde muitos passam parte da noite, invariavelmente estrelada se não chove. Alguns dançam forró no convés enquanto outros se distraem vendo um filme, lendo um livro desde suas redes ou simplesmente batendo papo em um dos vários grupinhos que se formam, abertos a qualquer um que se aproxime... As crianças, já totalmente íntimas umas das outras, se divertem correndo pelos quatro andares de nossa casa flutuante.


Ainda passaremos por Prainha, Óbidos, Juriti, Oriximiná, Santarém, Parintins e Itacoatiara antes de desembarcar em Manaus. Em cada porto onde o barco atraca, vendedores ambulantes sobem ao nosso encontro para oferecer iguarias da região: sucos e picolés de diversos sabores, castanha, tapioca recheada com côco, coxinha de carne, queijo, tucumã, açaí, bolinho de  peixe, piracuí...


Santarém


No porto de Santarém, é hora de desembarcar parte da carga – feijão, farinha, macarrão – e embarcar gente. A partir daí, nos acompanha um novo grupo. Entre eles, um jovem casal que havia viajado de Manaus a Santarém para tentar uma melhor sorte na vida. Depois de três meses pelejando e de sofrerem um roubo no qual perderam o pouco que tinham, são obrigados a retornar à cidade natal com uma mão na frente e outra atrás.


Ganharam passagem de cortesia de um deputado, mas nem rede tem para armar. Acabam por improvisar uma cama com os salva-vidas disponíveis no teto do barco. Ao dia seguinte, um dos membros da tripulação percebe sua ausência no refeitório e gentilmente lhes desperta no chão: "Saco vazio não fica em pé, por isso levantem para comer uma quentinha porque ainda temos dois dias pelo rio. Não precisam pagar, não".


E de agora em diante, bem alimentados pela solidariedade amazônica, podem desfrutar a paisagem única, ressaltada pelas cores no céu dependendo da hora: azul durante o dia se o tempo está bom...  e ao amanhecer e entardecer, o espetáculo imperdível: diversos tons de laranja fazem reflexo nas águas barrentas e douradas do Amazonas, enquanto os pássaros brincam no céu.


De dia, o verde das matas provoca a imaginação... de noite, a quantidade de estrelas nos faz sentir o cosmos com uma intensidade inusitada... e todo o tempo avançando a 20 km/h . No ritmo da canoa. E da Amazônia, que também nos mostra algumas de suas feridas: nesse show de poesia é possível ver as queimadas e desmatamentos como uma lepra que lentamente se espalha no corpo de um inocente. 




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