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Lobo-guará símbolo de projeto de conservação na Serra da Canastra morre de forma trágica

Fêmea foi atropelada após 40 dias de liberdade

07 de Fevereiro de 2018
Foto Projeto
Lobinha era monitorada por uma coleira com GPS / Crédito: Rogério Cunha de Paula

A lobo-guará fêmea protagonista de um projeto de reintrodução da espécie na Serra da Canastra teve sua vida ceifada 40 dias após voltar para a natureza. Lobinha foi atropelada por uma motocicleta na madrugada do último dia 14. O impacto fraturou cinco costelas e lesionou gravemente o pulmão, gerando hemorragia e asfixia. Os dados transmitidos pelo colar de GPS que a monitorava indicaram que ela se arrastou para dentro de um cafezal após o acidente e morreu cerca de 30 minutos depois.

"Nossa equipe está mais do que triste. Está devastada com essa tragédia", declarou o biólogo Rogério Cunha de Paula em sua conta no Facebook, comunicando o falecimento. Ele é coordenador do projeto e analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Cenap/ICMBio).

O projeto a que Lobinha pertencia fazia parte do Plano de Ação para a Conservação do Lobo-Guará, coordenado pelo Cenap em conjunto com o Instituto Pró-Carnívoros e a Universidade de Franca (SP). Ele consistia na devolução de lobos-guarás órfãos à natureza para se readaptarem e conseguirem viver por si só. Os pesquisadores ambicionavam ainda que o animal simbolizasse uma iniciativa de ecoturismo na Serra da Canastra.

Lobinha havia sido resgatada com apenas quatro messes de vida de um canavial em Araraquara, São Paulo. Ela ficou órfã após uma queimada assolar o local em que vivia com sua família. Passou cerca de um ano e meio em reabilitação, numa área de 2,6 mil m2 de Cerrado natural, à beira do Parque Nacional da Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas.

A ideia foi bem sucedida em sua primeira etapa, na qual os exames demonstravam que a loba estava saudável e apta para ser devolvida para a natureza. "A primeira fase, que foi o desenvolvimento desse protocolo, o conhecimento aprendido com relação à reabilitação, a dieta e tudo mais, isso a gente tem, isso foi um sucesso pela resposta dela com a soltura", destacou Cunha. Mas sua morte drástica e precoce deixou várias dúvidas sobre a ecologia e o comportamento de um animal reintroduzido. De acordo com os pesquisadores, Lobinha ainda estava explorando a área e não tinha definido um território. Além disso, eles aguardavam o período reprodutório da espécie, que acontece entre fevereiro e abril, para saber se ela já encontraria um parceiro.

"Todas essas questões ficaram sem resposta", lamentou. Saber, por exemplo, quais variáveis afetam a resposta do bicho na natureza - como as condições da paisagem ou aceitação dos proprietários de terras na região - e quais problemas podem ser encontrados após a soltura.

"Um deles a gente acabou de descobrir pela dor, que foi o atropelamento. Nunca imaginamos que ela pudesse ser atropelada em uma estrada rural aqui, que não tem nem como pegar alta velocidade. São estradas de terra, em época de chuva, então foi realmente uma surpresa muito desagradável para nós", acrescentou Cunha.

Conheça a história da lobinha

Lobo-guará: símbolo do Cerrado

Apesar de ser chamado de "lobo", o Guará é uma espécie distinta adaptada ao Cerrado. Em nada se parece com a figura tradicional dos valentes e ferozes lobos americanos e europeus, que vivem em alcateias e caçam grandes animais para sobreviver. Ele é o maior canídeo da América do Sul, mas é tímido, inofensivo e vive sozinho. Por sua pelagem colorida e elegância caracterizada pelas longas pernas, é considerado uma das mais belas espécies da fauna brasileira.

Ele é onívoro, ou seja, alimenta-se de animais (pequenos roedores, aves, insetos) e de vegetais, sendo a fruta-do-lobo sua preferida %u2013 é um vermífugo natural. Sem ela, o lobo-guará morre de complicações renais causadas por nematódeos (também chamados vermes cilíndricos).

Embora esteja classificado como Quase-Ameaçado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), o lobo-guará tem o status de Vulnerável na Lista Vermelha do ICMBio. A destruição do Cerrado é a maior ameaça à sua sobrevivência. Caça, incêndios, doenças transmitidas por cachorros e atropelamento completam a lista de perigos que ele enfrenta. Os três principais estados onde a espécie ocorre no país têm uma grande malha viária, aumentando o risco de atropelamentos, já que o lobo-guará se desloca muito.

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