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Selfie da crueldade: fauna silvestre é explorada pelo turismo

Atividade que fatura cerca de 1,5 trilhão de dólares por ano mascara realidade de maus tratos e crueldade

20 de Novembro de 2017
Foto Projeto
Crédito: World Animal Protection/divulgação

Tucanos com graves abcessos nos pés. Preguiças amarradas com cordas em árvores. Sucuris-verde com sinais de desidratação e feridas. Jacaretinga contido com elásticos ao redor das mandíbulas e armazenado em uma geladeira quebrada. Um tamanduá-bandeira espancado por seu dono. Esses são apenas alguns exemplos dos cruéis bastidores do turismo de vida selvagem, mercado que fatura cerca de 1,5 trilhão de dólares anualmente em troca do sofrimento animal.

A organização World Animal Protection (WAP) investigou o turismo com animais em Manaus e Puerto Alegria, no Peru, regiões potenciais para a atividade por abrigarem riquíssima diversidade animal e serem acessíveis. Os resultados alarmantes estão compilados no relatório "Um foco na crueldade: O impacto prejudicial das selfies com vida silvestre na Amazônia".

De 2014 até agora, o estudo verificou aumento de 292% no número de selfies com fauna silvestre publicadas na rede social Instagram. Celebridades como o cantor americano Justin Bieber, as socialites Kim e Khloe Kardashian e a modelo Cara Delevingne já postaram fotos com animais silvestres. Bieber já apareceu passando a mão em um tigre, Khloe com um macaco no colo, Kim ao lado de um elefante e Cara com uma coruja. Famosos em todo o mundo, suas publicações podem alcançar até 1 bilhão de visualizações, o que incentiva a prática.

Mas a maioria dos internautas que curte essas publicações, assim como grande parte dos turistas, desconhece a realidade por trás daquele "entretenimento". Nos bastidores, "esses animais são, muitas vezes, espancados até a submissão, tirados de suas mães quando bebês e secretamente mantidos em espaços sujos e pequenos. Eles também são repetidamente atraídos com alimentos, o que pode ter um impacto negativo em sua saúde e comportamento a longo prazo", pontua o estudo.

Em Manaus, das 18 empresas de turismo investigadas, 94% ofereciam excursões que incluíam tocar, segurar e tirar fotos com animais silvestres. Trinta e cinco por cento das atrações usavam comida para atrair os bichos e 11% vendiam a oportunidade de nadar com eles. O boto cor-de-rosa é a espécie mais oferecida para contato físico, seguido pela preguiça-de-três dedos, o jacaretinga, a sucuri-verde e o macaco-esquilo. A equipe da WAP registrou botos com arranhões pelo corpo, oriundos de disputas com outros animais por iscas jogadas por turistas. Muitos dos passeios eram realizados no Parque Ecológico Januari, localizado a 45 minutos de Manaus, de barco.

O caso das preguiças é especialmente alarmante por serem animais extremamente frágeis. Por causa de seus movimentos lentos e expressão facial que passa a impressão de que estão sempre sorrindo, as preguiças se tornaram o principal alvo dessa exploração cruel da vida silvestre. Cerca de 70% de todas as selfies com preguiças publicadas no Instagram são de pessoas abraçando, segurando ou usando esses animais como acessórios para fotos. Este vídeo mostra a captura de uma preguiça para o mercado do turismo de vida selvagem.

As preguiças dormem entre 15 a 18 horas por dia, mas os animais explorados dormiam ou descansavam por apenas 2% do tempo, conforme o estudo. Na natureza, a espécie foi observada dormindo e descansando por até 56% do tempo. Os pesquisadores estimam que os espécimes retiradas de seu habitat podem não sobreviver por mais de seis meses no mercado do turismo. Em vida livre, elas podem viver por até 40 anos.

A maioria das espécies encontradas pela organização sofre algum risco, seja por que estão desprotegidas ou ameaçadas. De acordo com a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), 61% necessitam de proteção legal internacional e 21% estão ameaçadas, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Silvestres, não entretenimento

O estudo enfatiza que o problema não está no turismo com animais em si, mas em como ele é realizado. "O turismo com vida silvestre, quando corretamente gerenciado, pode ser bom para o meio ambiente e para os animais silvestres: pode ajudar a financiar e manter áreas de proteção ambiental e aliviar a pobreza", pontua a ONG.

Em 2015, a WAP lançou a campanha "Silvestres. Não entretenimento", iniciativa que pretende extinguir práticas cruéis do turismo com animais silvestres. A conscientização dos turistas é um dos pontos mais visados pela organização. A campanha já alcançou resultados positivos. Segundo o relatório, a TripAdvisor e a Expedia, empresas internacionais de viagens, não vendem mais ingressos "para algumas das mais cruéis atrações turísticas com vida silvestre". Outras 180 agências turísticas também se dispuseram a vetar passeios e shows com elefantes, muito utilizados para transportar pessoas.

O próximo passo da campanha é convencer o Instagram a repensar suas políticas relacionadas à proteção animal. Para isso, foi criada uma petição online intitulada "Código da selfie", que servirá de exemplo do engajamento das pessoas na campanha. Mais de 248 mil já assinaram a petição. Até então, a plataforma não inclui nenhuma linguagem sobre crueldade animal ou bem-estar em suas diretrizes de comunidade.